Resultado de Wellington Fagundes expõe uma eleição que contrariou expectativas e levanta debate sobre a necessidade de ouvir o eleitor antes de definir candidaturas
A eleição para o Governo de Mato Grosso em 2026 deixou um recado importante para os partidos que pretendem disputar espaço no Estado: a força de uma legenda nacional não significa, necessariamente, transferência automática de votos para seu candidato estadual.
O senador Wellington Fagundes (PL) entrou na disputa como o nome do Partido Liberal para o Governo de Mato Grosso. A candidatura foi oficialmente homologada pelo PL em julho. (Senador Wellington Fagundes)
No entanto, o resultado das urnas mostrou uma realidade diferente daquela que parte do campo político esperava.
Otaviano Pivetta (Republicanos) foi reeleito governador no primeiro turno, com 60,77% dos votos válidos. Wellington Fagundes terminou em segundo, com 23,19%, enquanto Natasha Slhessarenko (PSD) alcançou 15,17%.
O resultado chama ainda mais atenção porque Mato Grosso é reconhecido como um dos principais redutos eleitorais do campo conservador no país. Ainda assim, a preferência por candidatos ligados à direita nacional não se traduziu automaticamente em uma votação majoritária para o candidato do PL ao Governo.
O eleitor separou as escolhas
Um dos principais fenômenos observados nesta eleição foi justamente a capacidade do eleitor de separar a escolha nacional da escolha estadual.
Isso ficou evidente na própria campanha. Uma pesquisa Quaest divulgada em agosto mostrava Wellington numericamente à frente de Pivetta: 27% contra 23%, dentro da margem de erro. Natasha aparecia com 8%.
Na reta final, entretanto, o cenário mudou significativamente. Pesquisa Quaest realizada nos dias 2 e 3 de outubro apontava Pivetta com 40%, Wellington com 20% e Natasha com 11% das intenções de voto.
Nas urnas, Pivetta ampliou ainda mais essa vantagem e venceu em todos os 142 municípios de Mato Grosso.
Cuiabá e Várzea Grande deram um sinal ainda mais forte
O resultado dos dois maiores colégios eleitorais do Estado merece atenção especial.
Segundo levantamento publicado após a apuração, Wellington não conseguiu vencer nem em Rondonópolis, sua cidade natal. Pivetta teve 50,86% contra 31,07% de Wellington no município.
Em Cuiabá e Várzea Grande, o candidato do PL também ficou atrás de Natasha em determinados resultados municipais, mostrando que o eleitorado dessas cidades não reproduziu simplesmente a lógica da disputa nacional.
Natasha, candidata do PSD, teve apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já que a esquerda não lançou candidatura própria ao Governo de Mato Grosso.
O fenômeno merece ser analisado porque demonstra que alianças partidárias e posicionamentos ideológicos nacionais não garantem, por si só, uma votação uniforme em eleições estaduais.
O problema pode estar na leitura do eleitor?
É justamente aqui que começa uma discussão estratégica dentro do PL e de outros partidos.
Uma candidatura pode ser construída internamente, receber apoio da direção partidária, formar alianças e entrar oficialmente na disputa. Mas a pergunta fundamental permanece:
O eleitor realmente queria aquele candidato?
Essa é uma questão que pesquisas qualitativas e quantitativas podem ajudar a responder antes de uma convenção partidária.
Não se trata apenas de saber quem aparece na frente em uma pesquisa de intenção de voto. É necessário compreender rejeição, transferência de votos, avaliação de governos, força regional, capacidade de mobilização e, principalmente, quais nomes o eleitor espontaneamente considera para determinado cargo.
No caso de Mato Grosso, os números mostram que havia uma diferença entre a força política do campo bolsonarista e o desempenho eleitoral do candidato do PL ao Governo.
Isso não significa que o eleitorado tenha deixado de ser conservador. Significa que o eleitor pode manter determinada preferência ideológica e, ao mesmo tempo, escolher outro nome para o Executivo estadual.
Uma lição para os partidos
O resultado de 2026 abre uma discussão que vai além de Wellington Fagundes.
Para as próximas eleições, as direções partidárias terão de avaliar se estão escolhendo candidatos a partir de decisões internas ou se estão efetivamente medindo aquilo que acontece nas ruas.
A política mudou.
O eleitor está mais informado, compara candidatos, acompanha redes sociais, observa obras, avalia governos e pode votar de maneira diferente para presidente, governador, senador, deputado e vereador.
A eleição de Mato Grosso mostrou exatamente isso.
Não basta ter uma marca partidária forte. É preciso entender o eleitor.
E, quando um partido escolhe um candidato sem medir adequadamente a tendência do eleitorado, a urna pode apresentar um resultado completamente diferente daquele projetado dentro dos gabinetes.
A vitória expressiva de Pivetta e a votação de Natasha em importantes centros urbanos colocam essa discussão na mesa.
Agora, mais do que procurar culpados, os partidos terão de analisar os números, município por município, região por região, para entender por que um candidato identificado com o campo político nacionalmente forte no Estado não conseguiu transformar essa força em votos para o Governo.
Essa talvez seja uma das principais lições deixadas pelas urnas de 2026 em Mato Grosso.